Rubens Ricupero*
A crise da comida é uma contradição: os preços explodem no momento em que a quantidade de alimentos por pessoa é 24% maior do que há 40 anos. A oferta de calorias diárias por habitante passou, nesse intervalo, de 2.360 para 2.803, enquanto a população saltava de 3 bilhões para 6 bilhões. A produtividade de cereais mais que dobrou: por hectare, subiu 150%.Como explicar a disparada de preços se a oferta aumentou mais que a população? A primeira resposta é que boa parte dessa oferta está sendo disputada por gente que não participava do mercado por falta de renda. Em 1965, a porcentagem da população mundial que vivia em países com disponibilidade média de calorias abaixo de 2.200 era de 57%; agora, é de apenas 10%. A melhoria se concentrou na China, Índia, Brasil e Indonésia, quase metade da população do planeta.
Ainda sobraria muito alimento se uma proporção crescente não fosse desviada para biocombustíveis, em especial nos EUA. A responsabilidade do etanol de milho é clara. Até 2005, quando entrou em vigor a lei americana sobre o etanol, o preço da tonelada de milho era de US$ 85. Em dois anos, pulou para US$ 250.
A colheita de milho cresceu 24% em 2007 (330 milhões de toneladas), a maior desde 1933. No entanto, quase 25% se destinaram ao etanol, não à cadeia alimentícia. O aumento foi conquistado, em parte, em detrimento da soja e do trigo, que também encareceram em conseqüência.
Seria menor a pressão sobre alimentos se parcela substancial do etanol fosse importada do Brasil, onde o produto não concorre com comida (o açúcar é dos poucos alimentos cujo preço pouco mudou). Isso não ocorre porque o protecionismo leva os EUA a impor barreira de US$ 0,51 sobre o galão (3,8 litros) do etanol importado (na Europa é pior: o imposto é de US$ 0,70).
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Mais comida - e muito mais comensais




(Classifique)Etanol de milho e subsídios são os vilões da alta dos alimentos




(Classifique)Crise internacional dos alimentos




(Classifique)Etanol brasileiro é 8 vezes melhor que o feito de milho




(Classifique)Extrato da entrevista do chefe-geral da Embrapa Agroenergia Frederico Durães ao Entrevista Record Atualidade. O vídeo veiculado em http://www.mundorecordnews.com.br/play/827425ad-c81a-45bb-bbe8-4961b8595701
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Nos EUA, Lula defende fim das barreiras ao etanol brasileiro




(Classifique)Afirmou que o Brasil “aposta na integração da América do Sul” e rejeitou as pressões contra as relações da Petrobrás com o Irã
O presidente Lula afirmou em Camp David (EUA), durante entrevista logo após reunir-se com Bush, que o Brasil vai continuar “apostando firmemente na integração da América do Sul”. “Estamos obtendo avanços extraordinários com a integração, expandindo o comércio e realizando as obras de infra-estrutura que podemos realizar”, disse, no último sábado. “Nós estamos aproximando os nossos povos, que durante tanto tempo ficaram de costas um para o outro”.
PETROBRÁS
Ao responder a uma pergunta sobre restrições recentes que o embaixador norte-americano no Brasil, Clifford Sobel, fez à direção da Petrobrás sobre os projetos e investimentos da estatal brasileira no Irã, Lula deixou claro que os assuntos do Brasil com o Irã não são da alçada dos EUA. “Estou convencido de que a Petrobrás vai continuar investindo e pesquisando no Irã, salientou o presidente. “O Irã tem sido um parceiro comercial importante do Brasil”, argumentou.
Descartando qualquer medida que signifique redução ou limitação nas relações comerciais com o Irã, Lula ressaltou que só quem tem autoridade para analisar esse tipo de questão é a ONU e mais ninguém.
Em seu pronunciamento, Lula disse que o século XXI tem que ser “o século da inclusão dos deserdados no século XX”. E fez questão de destacar que ao dizer isso estava falando dos países mais pobres da América Latina, da América do Sul, da África e da Ásia.
Lembrando que a Rodada de Doha é decisiva para diminuir a fome, Lula defendeu que se derrubem as barreiras comerciais impostas pelas grandes potências para que se possa combater a pobreza no mundo. “Estamos tentando concluir com êxito essas negociações comerciais”, lembrou.
“A persistência de subsídios agrícolas encarece os alimentos e desestimula sua produção nos países pobres”, denunciou. “Sem a eliminação dos subsídios, a oportunidade de desenvolvimento representada pelos biocombustíveis será perdida e, com ela, a possibilidade de melhoria das condições de vida de centenas de milhões de homens e mulheres”, prosseguiu Lula.
“É necessário ir eliminando as barreiras ao etanol, para fazer valer uma verdadeira commodity energética”, ressaltou. “Em nenhum momento eu saí daqui com o otimismo que eu saio, de que estamos mais próximos do que jamais estivemos de fazer um acordo na Rodada de Doha”, completou o presidente.
Lula falou também sobre a poluição ambiental, um dos principais problemas provocados pela indústria norte-americana. “Temos um assunto a ser tratado no século XXI, que não tratamos bem no século XX e que pode permear as nossas relações para os próximos anos, que é a questão climática do planeta Terra”, disse. “Agora, chegou a hora e a vez dos países do mundo inteiro levarem a sério a questão ambiental, porque a Humanidade enfrenta um dos maiores riscos da sua história”, denunciou.
“O problema é assustadoramente concreto e atual, mas sua solução ainda é viável. Parte dela está ao alcance de nossas mãos. Já conversamos sobre isso duas vezes. Conversamos sobre os biocombustíveis e sobre nossa determinação em aprofundar a cooperação nesse setor”, lembrou.
Lula fez referência ao Memorando de Entendimento assinado em São Paulo que, segundo ele “constitui a base de uma parceria ambiciosa que permitirá enfrentar os grandes desafios deste século que começa”. “Primeiro, a resolução da crise energética que afeta quase todos os países do mundo; segundo, a proteção do meio ambiente, ameaçado pelo aquecimento global. Finalmente, a redução da pobreza e da exclusão social, com a criação de novos empregos e expansão da renda para os trabalhadores mais pobres do mundo”, apontou. Ele lembrou que o estímulo à produção de biocombustíveis “é parte decisiva do esforço para resolver esse problema”.
“Essa nova matriz energética poderá tornar o mundo mais independente, poderá tornar o mundo mais gerador de riqueza porque a experiência que nós temos no Brasil é que, para cada trabalhador que trabalha numa usina de biodiesel, é preciso mil trabalhadores no campo. Significa que nós poderemos gerar uma quantidade de milhões de empregos pelos países mais pobres do mundo que não estava previsto em nenhum documento assinado por nós no século XX”, afirmou.
ALIMENTOS
“O Brasil”, prosseguiu, “possui a maior e mais importante biodiversidade do Planeta. Temos consciência do valor que esse patrimônio natural representa para o nosso país e para o mundo”. “O Brasil, com 383 milhões de hectares de área agricultável, pode conciliar a produção de alimentos, a produção de biocombustíveis e a defesa de nossas florestas”, enfatizou. “Nosso conhecido compromisso com o combate à fome não nos permite que qualquer atividade venha a prejudicar a produção de alimentos”, ressaltou. “E todos nós sabemos que a fome no mundo não é gerada por falta de alimentos mas, sim, pela falta de renda e de decisão política de garantir comida para todo mundo”, completou.
SÉRGIO CRUZ reportagem (04 de abril) do Hora do Povo
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