Che buscou transformar a sociedade e construir o novo homem
“Através desta homenagem ao Che estamos fazendo uma homenagem aquilo que ele mais representou, ou seja, ao ser humano, à condição humana”, afirmou Cláudio Campos para o público que lotou completamente o teatro TAIB em São Paulo
Publicamos a seguir, pela sua atualidade, os trechos da palestra de Cláudio Campos, denominada “Che: O despertar da Revolução”. A palestra foi realizada no dia 8 de outubro de 1984, no Teatro TAIB, em São Paulo e se constituiu numa das principais homenagens realizadas em nosso país ao grande líder revolucionário da América Latina e dos povos no mundo inteiro.
O TAIB lotou para ouvir Cláudio Campos. Presentes dezenas de lideranças políticas e sindicais, parlamentares, intelectuais e estudantes. Secretários de Estado, deputados e senadores parabenizaram o Movimento Revolucionário 8 de Outubro – MR8 pela palestra e pela realização da homenagem.
O rico debate que se seguiu à exposição, revelou o profundo anseio do nosso povo em discutir e esclarecer todos os aspectos que dizem respeito aos caminhos da libertação política, social e econômica da nossa América Latina.
“No mundo inteiro, a figura do Che Guevara recebe o carinho de milhões de pessoas. Por que será que isso ocorre? Qual o significado da luta do Che Guevara?
Che iniciou sua luta revolucionária no período em que as oligarquias, diante do crescimento do movimento democrático, popular e nacional, pela ruptura da dependência ao imperialismo e pela libertação das forças produtivas latino-americanas, não viram outra solução senão instaurar as mais sanguinárias ditaduras por toda a parte de nosso continente. Primeiro, lutou na Guatemala, em 1954, quando foi derrubado o governo Jacobo Arbenz; posteriormente, se uniu no México à luta dos revolucionários cubanos contra a tirania de Batista. Naquele momento, ele sentiu que frente às ditaduras, que não conhecem outro argumento que não a força, o povo só poderia enfrentá-las através da resistência armada. Conclusão a que, muitos outros povos no mundo em diferentes épocas, foram obrigados também a chegar. Tal como os povos norte-americano, inglês, soviético, francês perceberam que para fazer frente à ferocidade do nazi-fascismo era necessário empunhar armas para derrotar as bestas-feras que procuravam impor a ditadura a toda a Humanidade. Será que o Che estava errado? Será que seria possível derrotar o fascismo e levar o povo à vitória sem que se empreendesse a resistência armada contra as ditaduras, contra o entreguismo, contra a corrupção desenfreada existente em nosso continente? A nós parece que não. Foi exatamente essa luta que derrotou as ditaduras de Batista, Somoza e hoje força o imperialismo a fazer mais e mais concessões em El Salvador.
Aqui no Brasil, depois de 1964 se instaurou um regime igualmente ditatorial. Em 1969, fechava-se o Congresso Nacional, impedia-se a posse do Vice-presidente de então, colocava-se no lugar uma Junta Militar inteiramente arbitrária que passava por cima de qualquer direito do nosso povo. Então também aqui foi necessário resistir à força do arbítrio, à força da política antipatriótica com a energia e o vigor correspondentes ao vigor espúrio que se voltava contra o povo.
O papel revolucionário dos patriotas da América Latina que, nas décadas de 50 e 60, se viram forçados a pegar em armas para enfrentar o fascismo e a corrupção, para lutar pela democracia e pela soberania nacional é uma luta com as mesmas características da luta de Tiradentes, Anita Garibaldi, Maria Quitéria, Sandino, Farabundo Martí, Bolívar e tantos outros que não tiveram alternativa para deixar claro que nossos povos não aceitam a prepotência, a arrogância e a submissão aos interesses antinacionais. Que nossos povos exigem ser livres, independentes e governados democraticamente e não apenas exigem, mas lutam por isso e não se submeterão a qualquer violência que procure subtrair nossos direitos à democracia e à liberdade.
Aquela resistência, naquele momento, foi indispensável para que se abrisse espaço para a mobilização pacífica do nosso povo. A firmeza e o compromisso com o povo revelados por Che e tantos outros revolucionários são umas das razões pelas quais os povos latino-americanos dedicam tão grande carinho pelo Che e seus companheiros, porque os povos mais do que ter consciência, mais do que ler nos livros, eles sentem que aquela luta só era possível de ser desempenhada, muitas vezes sem a menor chance de vitória imediata, por aqueles que fossem efetivamente comprometidos com os povos de nosso continente e com toda a Humanidade.
Mas há mais: aquele foi um momento de virada da luta de libertação da América Latina. Ao longo deste século muitas lutas foram travadas, mas faltava ainda amadurecimento, segurança e clareza. Muitas vezes, homens de valor tentaram aprender com a experiência de povos como a União Soviética e outros povos para tentar encontrar soluções para os problemas da América Latina. Mas não é possível transpor uma realidade externa para a nossa. Cada nação e cada época histórica é uma realidade diferente da outra. E então, essa tentativa conduzia freqüentemente a posturas livrescas, sectárias e até dogmáticas, independente da vontade, que era a melhor possível, dos que seguiam esse caminho. Mas não havia outro caminho.
Era preciso se comprometer com o povo, identificar os problemas centrais que impedem o nosso desenvolvimento e aprender com a experiência de outros povos; esse era o percurso a ser transitado até que o povo latino-americano ganhasse uma consciência clara sobre sua realidade, seus problemas e seus caminhos”.
SEM PERDER A TERNURA JAMAIS
“Foi no momento em que as forças do atraso intensificaram a resistência que se colocou a necessidade para os povos latino-americanos de dar um salto de qualidade político e ideológico, de superar as teses livrescas e a confusão imobilista. Para sentir qual era o problema central era preciso ir a luta. Nesse momento, irrompeu na América Latina um revolucionário novo, que era capaz não apenas de repetir, mas que integrava a sua consciência política e a sua teoria revolucionária com o seu sentimento humano e a sua forma de agir. A personalidade revolucionária se integrou de maneira muito mais profunda.
Todos nós sabemos da preocupação do Che não apenas em transformar a sociedade, mas também em construir o novo homem, mais integrado e mais comprometido com os seus semelhantes. Foi esse salto de qualidade que permitiu aos revolucionários entender que ali não adiantava falar frases progressistas e revolucionárias e se paralisar de forma comodista diante da barbárie, da opressão e da truculência.
Nós temos certeza que a Humanidade não vai viver eternamente sendo massacrada nas guerras, sendo dividida como se encontra hoje. O que precisa prevalecer e vai prevalecer, quando se derrotarem interesses de classe minoritários e opressores, é a capacidade dos seres humanos se harmonizarem e resolverem juntos os problemas que temos pela frente. Isso tem que ser motivado pelo conhecimento científico de onde estão as principais contradições. Mas o que o Che demonstrou, e a Humanidade reconhece no afeto que tem pela sua pessoa, é que o fundamental é o compromisso com o ser humano, é o respeito e amor pela condição humana. Che deixou clara a necessidade que todos não sejam mais divididos pela sociedade de classes e se unam numa sociedade solidária. E isso só se consegue quando se usa as teorias e os livros para fortalecer o sentimento. Se se negar os sentimentos e os sentidos, não vai se poder desenvolver teoria e ciência nenhuma.
É esse sentimento de compromisso com o ser humano que permite a vitória e permite ir ao fundo das coisas. Será que o Che, capaz que foi de inauditos sacrifícios, foi um homem triste e esmagado por eles? É evidente que não, porque ele desenvolveu a capacidade de se identificar com seu semelhante. Existe uma frase que o Che disse e que até bem pouco tempo, era mostrada timidamente. Hoje, pelo menos no Brasil, a figura do Che está indelevelmente ligada ao ponto de vista de que não se pode perder a ternura jamais”..
ExtraÃdo do Jornal Hora do Povo, Edição de 07 de Outubro de 2005








