“Risco de cair”


Última crítica do Ombudsman da Folha revela o quão podre está este veículo. O ombudsman tem mandato de 2 anos e podendo ser renovado por mais 1 ano, a Folha estava impondo ao Mário Magalhães que deixasse de publicar sua crítica diária para essa renovação, o que ele não aceitou e seu contrato não foi renovado. Abaixo a integra da crítica que você pode conferir aqui também.

“Risco de cair”

MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

Título da Folha na sexta feira passada (alto da pág. A7, edição São Paulo): “Para governo, caso é grave e exige resposta rápida da ministra”.

Abertura: “A cúpula do governo avalia que a situação política da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, se agravou e que ela precisa dar uma resposta rápida. Do contrário, corre risco de cair. Segundo apurou a Folha, essa resposta seria a demissão dos servidores da Casa Civil que elaboraram um dossiê sobre gastos secretos do governo Fernando Henrique Cardoso”. Mais: “Um ministro de Lula classificou a informação [sobre o 'documento vazado para a imprensa'] de gravíssima”.

Ou a ministra é forte demais e dá de ombros à “cúpula do governo”, ou a história, integralmente baseada em fontes não nomeadas, parece não estar bem amarrada. Mais que isso, sugere que adversários de Dilma no governo aproveitaram o anonimato para alvejá-la.

Manchete do “Estado” no domingo: “Planalto vai tirar Dilma da vitrine eleitoral”.

É outra informação que, pelo menos até agora, não se confirmou, pelo contrário.

Os dois episódios exemplificam os riscos da cobertura das crises e intrigas brasilienses.

Hoje a Folha cometeu, creio, um erro ao omitir na primeira página o confronto de ontem no Congresso. O senador Álvaro Dias admitiu ter visto o dossiê antes de sua divulgação. Dar destaque ao fato não implica tomar partido no noticiário, mas reconhecer a importância da declaração.

O “Estado” titulou na parte superior da capa: “Governistas acusam tucano de vazar dossiê dos cartões”.

O senador afirmou ontem: “Na segunda, logo após a circulação da revista ‘Veja’ no domingo, desta tribuna afirmei ter visto o dossiê”.

Hoje o título (de sentido dúbio) da Folha é “Aliados pressionam tucano que admitiu ter visto dossiê” (alto da pág. A6).

Se Dias conta a verdade, por que a Folha –e o conjunto ou parcela significativa do jornalismo– não publicou a declaração do senador assim que ele a fez? Por que só agora?

O senador tem razão: ele está protegido por garantia constitucional de não revelar a fonte que lhe permitiu acesso ao dossiê. Essa prerrogativa deve ser defendida pela democracia. Ela assegurou revelações importantes, oriundas de parlamentares, que os cidadãos conheceram por meio do jornalismo.

Dúvida: Dias avisou FHC sobre o dossiê? Se não avisou, como houve chantagem? Quem foi chantageado?

Seis dias atrás, a Folha manchetou: “Braço direito de Dilma montou dossiê”.

O relato continua a carecer de comprovação, e o jornal o flexibiliza. Hoje diz que a assessora “deu ordem para a compilação de dados”. Ou que ela “assumiu a ordem para a confecção de um ‘banco de dados’”. O “furo” da sexta virou, também, a “ordem para elaborar o banco de dados”.

O banco de dados não é o dossiê. O dossiê de 13 páginas foi elaborado a partir de informações do banco de dados. Pelo menos é o que eu entendi da cobertura.

O quadro “Perguntas e respostas” (pág. A6) confunde, em uma passagem: “A Folha chama o arquivo de dossiê”. Até aqui, a rigor, o jornal chamou o relatório de 13 páginas de “dossiê”, e não o “arquivo paralelo ao sistema oficial de controle de gastos”.

O jornal já afirmou que a Casa Civil assumira a autoria do dossiê (considero como dossiê o relatório de 13 páginas). Na edição de sábado, entretanto, Dilma disse o contrário: sua pasta reconhecia a produção da “base de dados”, da qual foram retiradas as informações que constam do dossiê.

Quem contradiz a ministra, hoje, é o seu chefe. Lula afirmou que alguém “roubou peças de um documento de um banco de dados”. Ou: “Nunca saberemos quem foi que pegou o documento de um banco de dados e vendeu como se fosse dossiê”.

Segundo Lula, as 13 páginas são um documento do “banco de dados”. A ministra dissera que as 13 páginas não foram elaboradas por sua equipe, mas confeccionadas por alguém de identidade ignorada a partir de informações classificadas na Casa Civil.

Na sexta, a Folha informou que teve acesso ao dossiê e publicou trecho dele em fac-símile. Por que não permitiu que os leitores conhecessem, pelo menos na internet, a íntegra do documento, para tirarem suas próprias conclusões? O blog do Noblat faz isso agora. Ainda é tempo de o jornal fazer.

O noticiário de hoje reforça a impressão de que governo e oposição se empenham no desgaste mútuo, mas nenhum está, realmente, disposto a investigar os gastos palacianos das gestões atual e passada. Se Álvaro Dias conheceu e repassou? um documento que considerava manipulação de informações sigilosas por funcionário público para fim de divulgação e chantagem, por que não denunciou o fato à Polícia Federal e pediu abertura de inquérito?

O mesmo vale para o governo, que qualificou como criminoso o vazamento de informações da Casa Civil protegidas por sigilo. Por que o Planalto não pediu inquérito à PF? Em vez disso, o Ministério da Justiça se moveu em sentido contrário, para abafar o caso.

Mantêm-se muitas dúvidas. Sobre quem, a partir da dita “base de dados”, montou o relatório de 13 páginas. Quem vazou o dossiê para fora do Planalto. E quem fez uso dele –embora essa resposta tenha começado a ser delineada ontem.

Outra incerteza permanece: o dossiê é incapaz de causar dano a FHC; como instrumento de chantagem, é inexpressivo (a não ser, repito, que sinalize o conhecimento sobre outras despesas, cabeludas); ele faz mal, mais que ao governo, a Dilma Rousseff; por que a ministra o patrocinaria?

É bom que o jornal, mesmo com o silêncio da primeira página, tenha recuado na cobertura de tom unilateral.

Como se vê nas páginas da Folha, há mais perguntas que respostas no caso do dossiê.

Contra os consumidores

A chamada de primeira página “Ministério da Justiça pede que Volks faça recall de 477 mil Fox” manifesta dúvida ao conjugar o verbo “ter” no futuro do pretérito: “Manuseio do banco teria machucado e até mutilado usuários”.

Como assim, “teria”?

Em semanas de cobertura, não houve tempo de checar com os consumidores, avaliar suas provas?

A Volkswagen reconhece o dano causado a pelo menos oito consumidores.

Por que a Folha não?

O horror, o horror

Mais do que na edição de hoje, ontem a Folha pareceu ter feito uma opção infeliz de esconder o caso do assassinato da menina Isabella. Jornais de todo o país, inclusive os não sensacionalistas, deram mais espaço do que a Folha, que dedicou ontem mera meia página ao episódio.

Reafirmo que é melhor errar por prudência do que por exagero.

Mas responsabilidade e sobriedade editoriais não implicam, necessariamente, restringir o noticiário.

É marcante, no jornalismo em geral, maior preocupação de não exercer funções de advogado de defesa, promotor, policial ou juiz, apesar de edições como a do “Diário de S. Paulo” já comentada aqui. Os advogados do pai e da madrasta da menina têm páginas e microfones para se manifestar sem restrições.

O comportamento equilibrado não exige abrir mão de apuração jornalística de fôlego.

A maior deficiência da Folha tem sido no acompanhamento das investigações. Por exemplo: como se aplicam as técnicas e funcionam os equipamentos empregados pelos peritos que analisaram o apartamento ontem à noite? É possível informar em detalhes. Uma descoberta na cena do crime pode elucidar o caso.

Os automóveis do casal não haviam sido examinados até ontem à noite? Se for isso mesmo: por quê? A polícia foi negligente?

O quadro “Contradições do casal, segundo a polícia” (pág. C3) faz um relato unilateral sobre a suspeita de peritos do IML de que Isabella não tenha caído do sexto andar. O chefe do IML diz o contrário. Mais de uma pessoa, inclusive o porteiro que encontrou a menina, ainda viva, narram um estrondo que teria sido provocado pelo choque do corpo contra o chão.

Por que a Folha omite versões contraditórias? Esse tipo de aposta é impróprio. É direito dos leitores conhecer opiniões contrárias.

O pai de Isabella é apresentado como “consultor jurídico”. O que é isso? Ele é advogado ou bacharel em direito? Trabalha em que área?

O Brasil se emociona com a morte de Isabella.

Cabe ao jornal, escrupulosamente, informar sobre a barbárie.

Sobre Joildo Santos

- Editor do Jornal Espaço do Povo

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