Tuitar
Jaime Lerner
De Curitiba (PR)Recentemente na URBAN AGE, uma importante reunião sobre cidades que aconteceu em SP e reuniu profissionais do mundo inteiro, o que me chamou a atenção era a insistência com que alguns trabalhos procuravam mostrar o quão complexa e insolúvel a cidade de São Paulo parece ser. Não é esta a minha opinião. Gosto muito de São Paulo e posso imaginar o quanto se pode avançar em qualidade de vida se aproveitássemos o seu potencial de criatividade e de cultura. Isso me fez lembrar de uma frase:
- Era uma vez uma família tão pobre, tão pobre, tão pobre; que o chofer era pobre, a empregada era pobre, o mordomo era pobre…
Essa historinha, que uma menininha rica contou na escola como exemplo de história triste, reflete bem o que acontece com as pessoas que não querem se misturar; o rico pretensioso que quer viver em um gueto de gente rica, em condomínios cada vez mais fechados. Quem levanta um muro alto, baixa a guarda ao malfeitor.
O que faz diminuir a violência numa vizinhança é o fato de um prestar serviço ao outro, o que exige uma vizinhança de renda mais diversificada. O fato de um vizinho necessitar de outros torna as pessoas mais solidárias e menos egoístas.
A promoção dessa diversidade passa pelo desenho da cidade, algo que diretrizes e leis urbanísticas ajudam a moldar. Nesse processo, saber para onde se vai, conhecer a cidade, ajuda. E sobretudo, entender que todo o processo de mudança exige um começo. Inovar é começar. Sem querer ter todas as respostas antes.
Também ajuda entender que toda a cidade é possível, que não está condenada, como muitas vezes São Paulo faz questão de alardear.
Essa síndrome de tragédia parece mais uma desculpa para não tentar. Existe uma suposição muito equivocada: como todo problema é complexo e em grande escala, complexas e em grande escala têm que ser as soluções.
Lembro que alguns anos atrás, enquanto algumas cidades tentavam e melhoravam sua questão ambiental, São Paulo se esmerava em apresentar como última novidade uma tecnologia que detectava quanto era o grau de poluição atmosférica de uma região. Em vez de resolver o problema, mostrava quão grave ele era. É claro que cada vez o diagnóstico pode ser melhor, mais sofisticado. Mas enquanto isso o paciente pode morrer.
Dessa maneira, São Paulo sempre será um problema insolúvel.


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