Fernando Haddad: Educação e Constituição


Publicado em 22/11/2009 Folha de São Paulo Tendências/Debates

FERNANDO HADDAD

As novas
gerações
hão de
notar o sentido
progressista em
que foi reescrito
o capítulo consagrado à
educação em nossa lei maior

UMA BOA maneira de julgar a atuação de um governante numa área específica é avaliar as mudanças constitucionais avalizadas por sua base de sustentação, sem a qual é impossível aprovar uma emenda constitucional, com ou sem o apoio da oposição.

O governo Lula aprovou, com o apoio da oposição, duas emendas constitucionais (nº 53 e nº 59) que alteraram significativamente oito dispositivos da maior relevância para a educação.

1) Obrigatoriedade do ensino dos quatro aos 17 anos. Nesse particular, nossa Constituição está entre as mais avançadas do mundo. Em editorial, esta Folha defendeu a seguinte tese: “Falta uma medida ousada, como estender a obrigatoriedade para todo o ensino básico, até a terceira série do nível médio”. Cinco meses depois, a emenda constitucional promulgada vai além, ao garantir a universalização da pré-escola, sem o que a obrigatoriedade do ensino médio se tornaria pouco factível.

2) Fim da DRU da educação. A Desvinculação de Receitas da União retirava do orçamento do MEC, desde 1995, cerca de R$ 10 bilhões ao ano. Depois da tentativa frustrada de enterrá-la por ocasião da prorrogação da CPMF, em 2007, o Congresso finalmente pôs fim à DRU, valendo-se dos últimos três orçamentos de responsabilidade do governo Lula.

3) Investimento público em educação como proporção do PIB. O atual Plano Nacional de Educação (PNE 2001-2010) previra a “elevação, na década, por meio de esforço conjunto da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios, do percentual de gastos públicos em relação ao PIB, aplicados em educação, para atingir o mínimo de 7%”.

O dispositivo foi vetado, em 2001, com o seguinte argumento: “Estabelecer, nos termos propostos, uma vinculação entre despesas públicas e PIB, a vigorar durante exercícios subsequentes, contraria o disposto na Lei de Responsabilidade Fiscal”.

A saída para o próximo PNE foi aprovar norma de hierarquia superior. Com a emenda constitucional nº 59, torna-se obrigatório o “estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do PIB”.

4) Piso salarial nacional do magistério. O Pacto pela Educação, firmado em 1994 no Palácio do Planalto, previa a fixação de um piso salarial para todos os professores do país. Renegado, o compromisso, enfim, tornou-se realidade. Em 1º de janeiro de 2010, o piso deverá ser totalmente integralizado e observado por todos os Estados e municípios.

5) Fundeb. O Fundo da Educação Básica, que substituiu o Fundef, multiplicou por dez a complementação da União que visa equalizar o investimento por aluno no país, além de incluir as matrículas da educação infantil, do ensino médio e da educação de jovens e adultos, desconsideradas pelo fundo anterior, restrito ao ensino fundamental regular.

6) Repartição e abrangência do salário-educação. Os recursos do salário-educação, mais do que duplicados, antes destinados apenas ao ensino fundamental, podem, agora, financiar toda a educação básica, da creche ao ensino médio, e sua repartição passou a ser feita entre Estados e municípios pela matrícula, diretamente aos entes federados.

7) Ensino fundamental de nove anos. As crianças das camadas pobres iniciam agora o ciclo de alfabetização na mesma idade que os filhos da classe média, aos seis anos, garantindo-se o direito de aprender a ler e escrever a todos.

8 ) Extensão dos programas complementares de livro didático, alimentação, transporte e saúde escolar, antes restritos ao ensino fundamental, para toda a educação básica, da creche ao ensino médio. Pode soar inacreditável, mas, até 2005, os alunos do ensino médio público não faziam jus a nada disso.

Mesmo que fosse possível deixar de lado as reformas infraconstitucionais no nível da educação básica, profissional e superior enfeixadas no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), a profundidade dessas mudanças estruturais já justificaria um governo.

No tempo certo, as novas gerações se debruçarão, com o distanciamento devido, sobre um evento tão cheio de significado histórico quanto a presidência de Lula, suas semelhanças e colossais diferenças, e hão de notar o sentido progressista em que foi reescrito o capítulo consagrado à educação na nossa lei maior.

FERNANDO HADDAD, 46, advogado, mestre em economia e doutor em filosofia, é professor de ciência política da USP e ministro da Educação.

Sobre Joildo Santos

- Editor do Jornal Espaço do Povo


Um Comentário

  • abraao gomes dos santos
    3 de fevereiro de 2011 | Permalink | Responder

    nós sabemos que a constituição já prescrevia a valorização dos profissionais da educação, a LDB, também,agora eu acho que tá na hora da presidente eleita e o ministro da educação começar a trabalhar serio com compromisso com a nosa sociedade, que acorda cedo,trabalha muito e uma celeuma para aprovar um misero salario minimo, que tá provado que não onera os gastos publicos e nem,nem gera inflação, pergunta pros especialistas em economia se eu não estou falando a verdade, sim quando foi para aprovar os seus propios salarios em mais de 60 por cento, foi em 3 segundos ,a população esta esperando trabalho serio organizado o brasil nosso ,os nosos representante que nós pagamos é para trabalhar em beneficio do povo que o paga e o elegeu, tá na hora de menos conversa e açoões praticas objetivas que amenizem a situação dos desabrigados, do rio de de todas as localidades do pais, que precisam, esta semana vi uma sena na televisão um tanto inusitada galpões cheios de comida utensilhos etc. quase se perdendo por falta de transporte para transportar e atender aos atingidos pela enchentes no rio que pais e este, perdemos o direito da critica construtiva vamos deixar de peleguismo, de bajulaçoes e tratar das coisas publicas com zelo e responsabilidade, olha gente tem muita gente embriagada com o poder, e só vejo elogio em em causa propia e esquecendo que suas dividas sociais com o nosso povo é grande e se faz necessario arregaçar as mangas, há municipios no interior da paraiba que ainda não paga este misero piso salarial aos nossos nobres herois e valorosos professores vamos briar vergonha na cara e cobrar,resultados ,sabemos que educação é prioridade, a esta altura do campeonato o rejuste do piso salarial da categoria magisterio não foi redigida pelo exmo. ministro democracia e isto, sei também que dois senadores heroicamente reinvidicou que o percentual agraciado pelos parlamentares fosem repasados para o piso nacional do magisterio, antes das eleições a educação é muito falada priorizada depois que ganha esquece , então cidadão brasileiro cobrem revindique , tudo isso e um direito do noso povo não e favor não

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