
Maria Victoria de Mesquita Benevides*
Quase ninguém lê editorial de jornais, mas quase todos leem a seção de cartas. E foi assim que tudo começou. Os fatos: a Folha de S.Paulo, em editorial de 17/2, aplica a expressão “ditabranda” ao regime militar que prendeu, torturou, estuprou e assassinou. O primeiro leitor que escreve protestando recebe uma resposta pífia; a partir daí, multiplicam-se as cartas: as dos indignados e as dos que ainda defendem a ditadura. Normal.
Mas eis que chegam a carta do professor Fábio Konder Comparato e a minha: “Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar ‘importâncias’ e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi ‘doce’ se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!” (esta escriba). “O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17/2, bem como o diretor que o aprovou, deveria ser condenado a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana” (Prof. Fábio).
As cartas são publicadas acompanhadas da seguinte Nota da Redação – “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente ‘cínica e mentirosa’.”
Pronto. Como disseram vários comentaristas, a Folha mostrou a sua cara e acabou dando um tiro no pé. Choveram cartas para o ombudsman do jornal – que se limitou a escrever, quase clandestino, que a resposta pecara por falta de “cordialidade”. Um manifesto de repúdio ao jornal e de solidariedade, organizado pelo professor Caio Navarro de Toledo, da Unicamp – com a primeira adesão de Antonio Candido, Margarida Genevois e Goffredo da Silva Telles – passa imediatamente a circular na internet e, apesar do carnaval, conta com mais de 3 mil assinaturas. Neste, depoimentos veementes de acadêmicos, jornalistas (inclusive nota do sindicato paulista), artistas, estudantes, professores do ensino fundamental e médio, além de blogs. Vítimas da repressão escrevem relatos de suas experiências e até enviam fotos terríveis. A maioria lembra, também, o papel da empresa Folha da Manhã na colaboração com a famigerada Oban.O que explica essa inacreditável estupidez da Folha?
A meu ver, três pontos devem ser levantados: 1. A combativa atuação do advogado Comparato para impedir que os torturadores permaneçam “anistiados” (atenção: o caso será julgado em breve no STF!). 2. O insidioso revisionismo histórico, com certos acadêmicos, políticos e jornalistas, a quem não interessa a campanha pelo “Direito à Memória e à Verdade”. 3. A possível derrota eleitoral do esquema PSDB-DEM, em 2010. (Um quarto ponto fica para “divã de analista”: os termos da nota – não assinada – revelam raiva e rancor, extrapolando a mais elementar ética jornalística.)
Dessa experiência, para mim inédita, ficou uma reflexão dolorosa, provocada pela jornalista Elaine Tavares, do blog cearense Bodega Cultural, que reclama: “Sempre me causou espécie ver a intelectualidade de esquerda render-se ao feitiço da Folha, que insistia em dizer que era o ‘mais democrático’ ou que ‘pelo menos abria um espaço para a diferença’. Ora, o jornal dos Frias pode ser comparado à velha historinha do lobo que estudou na França e voltou querendo ser amigo das ovelhas. Tanto insistiu que elas foram visitá-lo. Então, já dentro da casa do lobo ele as comeu. Uma delas, moribunda, lamentou: ‘Mas você disse que tinha mudado’… E ele, sincero: ‘Eu mudei, mas não há como mudar os hábitos alimentares’. E assim é com a Folha (…). São os hábitos alimentares”.
O que fazer? Muito. Há a imprensa independente, como esta CartaCapital. Há a internet. Há todo um movimento pela democratização da informação e da comunicação. Há a luta – que sabemos constante – pela justiça, pela verdade, pela república, pela democracia. Onde quer que estejamos.
*Maria Victoria Benevides é socióloga com especialização em Ciências Políticas e professora titular da Faculdade de Educação da USP
Artigo publicado na Carta Capital e pela importância republico aqui.
E você o que acha desta polêmica?


10 Comentários
Abaixo é um pequeno trecho da minha pesquisa, dos que dizem que a dita foi BOOOAAA!!!. Trata-se das nomeações sem concurso e/ou concursos fajutas de docentes das universidades públicas, na e pós a didatura de 64.
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Tanto é assim que, que ainda hoje é possível encontrar docente público federal que jura até pelo sagrado que o Regime de 64 era dotado de uma bondade tão extremada pelo nosso educacional, e tão extremada mesmo, ao ponto de o ter nomeado sem concurso apenas por ele ter convencido general avalizador de de ficha dos ingressantes de ser o mais competente academicamente possível para o cargo
Só discordo do ótimo artigo em um ponto: a Carta Capital também andou mostrando sua cara recentemente, na inexplicável, e lamentável, postura adotada em relação ao refúgio concedido ao escritor e ex-militante Cesare Battisti.
Muito mal vai a imprensa brasileira…
Uma disputa onde um lado não presta, e o outro, menos ainda…
A Doutora esquerdista Maria Victória Benevides tenta pagar de boazinha e de voz da liberdade, defendendo a Carta Capital e colocando a derrota PSDB-DEM em 2010 como possibilidade de esquema (sendo que, a maioria dos cientistas politicos sensatos sabem que o momento está propício para estes dois partidos e, ainda mais, com uma união com o PMDB se bandeando novamente de lado)
Carta Capital neutra? E as verbas do governo que ela recebe? Onde pode existir neutralidade de um veículo de informação que tem 30% de sua verba publicitária colocada em uma única instituição? (Governo Federal)
A Folha estava errada? No meu ver totalmente errada. Porém, o texto da Folha foi colocado em uma área de editorial que, se os doutores não sabem, é uma área onde o jornal seleciona pessoas (não necessariamente jornalistas) para colocarem textos com os quais o jornal concorda e compactua. Onde está a liberdade de expressão nisto? O jornal não tem agora o direito de achar que houve uma “ditabranda” no país? Você pode não concordar com isto, mas a opinião deveria ser preservada. Interessante que estas mesmas pessoas que confrontaram o regime de ditadura hoje querem impedir que um veículo exprima sua opinião, não entendo isto.
Onde foi parar aquela velha máxima: “Posso não concordar contigo, mas morrerei pelo direito de você exprimir sua opinião” que os contra a ditadura pregaram? Estamos vendo uma tentativa de censura? Realmente o país não é mais sério, nem o jornalismo que não sabe responder com sensatez as ideias de seus leitores, muito menos os leitores que não sabem concordar com opiniões diferentes… uma pena.
Diego,
Estou de acordo com você. Acho que as pessoas deveriam manifestar seu descontentamento com a FSP, sim, mas seria mais eficaz não comprar mais esse jornal. Eu não compro mais.
O texto da professora Benevides foi definitivo e a Folha realmente deu um tiro no pé, tanto pela infeliz análise sobre a declaração em relação ao regime militar quanto pela resposta. O engraçado em relação a isso, é que tudo começou num post sobre a vitória chavista – sem embargo, se Chávez está no poder há dez anos, é por conta de críticas imbecis como essa que se prestam a insuflar um golpismo estilo anos 50 ao mesmo tempo que atentam contra a inteligência do leitor.
Sobre o fato disso ter sido ou não publicado na página de opinião, o fato é que isso aconteceu no editorial, uma área, convenhamos, fulcral de um jornal porque é lá onde é expresso o espiríto da publicação e suas convicções. Do mesmo modo que aquilo é uma “opinião”, outras pessoas também podem ter sua opinião contrária. Se um editorialista se presta a entrar numa polêmica, ao menos deveria se dar ao luxo de montar uma tese minimamente coerente, cair numa retórica de buteco e ainda surgir uma reação dessa no Painel de Leitores é compactuar com um fla X flu ideológico, cuja consequência é uma bola de neve – portanto, não há que se reclamar da sorte.
Foi um erro e um erro que terá consequência graves. A Folha conseguiu esconder com um êxito impressionante seu papel de tiete da OBAN graças àquele golpe de marketing fabuloso do início dos anos 80 que resultou no epíteto de “jornal das diretas”. O Estadão nunca conseguiu desmontar sua fama de jornal que compactuou com o golpe e pagou caro por isso no pós-ditadura perdendo o protagonismo entre os jornais paulistas. Hoje, boa parte dos efeitos do êxito do velho Frias foram por água abaixo e isso pode ter sido um divisor de águas.
Caros companheiros brasileiros:
Não quero distender longevas verbalizações passionais, mas desejo aperfeiçoar uma modesta proposta que vi em outro artigo: Acaba-se a lei da anistia, os torturadores são processados, e em troca, o pessoal que praticou terrorismo também será processado e ainda, os que receberam indenizações, devolvem o din-din. Que tal?
Concordo com o colega acima. Legal, vamos acabar com essa anistia aos militares, mas não esqueçamos também daqueles que combateram a ditadura com a mesma moeda, praticando sequestros, mortes e roubos.
Ou será que vai aparecer algum esquerdista aqui dizendo que os fins justificam os meios? Não duvido, é a mesma mentalidade desses pseudo-comunistas que acham linda a luta armada do MST e das FARC na Colômbia…
Além de concordar plenamente com o “camarada” Diego Camara” e acrescento o seguinte: porque nao houve manifestação nesses anos todos pós redemocratização contra a Folha de São Paulo, se todos os vermelhinhos sabiam que tal instituição apoiou e apoia a governo dos militares.
Sugiro àqueles que sequer tinham nascido naquele período e como vaca de presépio cocordam com as mentiras delavadas contadas por pessoas que engoliram as mesmas mentiras de outros mentirosos. Leiam o livro a Grande Mentira, Ed do Exército, porque nao existe nada melhor do que ouvir os todas as partes envolvidas num litígio.
Antes que eu esquece sinto orgulho de viver num país onde existe o maior número de heróis por metro quadrado do mundo.
Um abraço.
Você quer dizer que a ditadura realmente não cometeu as maiores atrocidades para se manter no poder? torturando, retirando direitos? se associando com meios de comunicação para manter isso.
Ed. do Exército, é óbvio que não verá NENHUMA linha sobre ditadura, mas sobre “Revolução” onde o que se prega é que os fins justificam os meios, sugiro que você leia o AI-5, o original e tire suas conclusões, não por interpretação do exército nem por interpretação de guerrilheiros, leia você mesmo, veja o quão democrático é
…deveria ser condenado a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão … ( isso não é uma ditadura? tortura? humilhação em praça púbilica?) olha só quem está criticando a folha – olha só quem está criticando a liberdade de expressão – imagine o que não faria com seu inimigo político no meio da selva – esquartejaria? decaptaria? Ou fuzilaria?
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http://tinyurl.com/bbov4h Ditabranda???
[...] 2- O Joildo postou em seu blog a resposta de Maria Victória Benevides a revista Carta Capital, o poço de neutralidade em meio a imprensa, você pode vê-la aqui. [...]
[...] tempos de “ditabranda” a música sempre foi usado como arma contra a opressão e a ignorância, por mais censurada [...]
[...] Foram aproximadamente 3 semanas, desde a publicação do tal editorial, em que choveram críticas de quase todos os lados. Com toda a razão, obviamente. A reação da Folha à reação da sociedade, foi quase tão preocupante quanto o próprio texto. Dois leitores, dentre os tantos que enviaram ao jornal paulista cartas indignadas, tiveram sua indignação chamada de “cínica e mentirosa”. [...]
Lembrando 2009: 'Ditabranda' para quem? http://bit.ly/bC1xxU
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