Considerado um dos maiores sábios de sua época, José Bonifácio esteve à frente dos principais eventos que culminaram com o Sete de Setembro
Quando José Bonifácio de Andrada e Silva voltou ao Brasil, em 1819, depois de longos estudos na Europa - direito e ciências naturais em Coimbra, filosofia e letras em Lisboa, matemática e mineralogia na França e Alemanha, geologia na Itália, além de viagens à Suécia e Noruega - era um dos maiores sábios da época. Em especial, era, provavelmente, o maior especialista em mineralogia do mundo - matéria que lhe dava uma visão muito precisa da riqueza de sua terra.
Desde 1808, com a chegada de D. João - depois D. João VI -, a situação do Brasil mudara. Antes de aportar no Rio de Janeiro, sem consultar os ingleses que faziam a sua escolta, D. João, à conselho do visconde de Cairu, brasileiro formado na economia política clássica de Adam Smith, havia decretado a “abertura dos portos às nações amigas”.
A medida não agradou aos ingleses: o “residente” inglês no Rio, Henry Hill (um caso de agente duplo: Hill também remetia informes ao presidente norte-americano James Madison), enviou a George Canning, ministro dos Negócios Estrangeiros da Inglaterra, um relatório considerando que a medida poderia favorecer nações concorrentes da Inglaterra. Logo chegaria ao Brasil outro inglês, o visconde de Strangford, para ser “conselheiro” econômico de D. João.
QUEBRA DO MONOPÓLIO
A abertura dos portos removeu um entrave ao progresso do Brasil, com a quebra do monopólio dos comerciantes portugueses que, a partir de Lisboa, intermediavam a venda de mercadorias inglesas para a colônia, ao mesmo tempo que também intermediavam a venda de produtos brasileiros para outros países - sobretudo, como é óbvio, à Inglaterra.
Em seguida, Cairu convenceu D. João a revogar o alvará de 1785, decretado por sua mãe, assinado por Dª Maria I, a Louca. Chegava ao fim, dessa forma, outro obstáculo ao desenvolvimento do país.
Em 1815, D. João acabou oficialmente com a condição de colônia do Brasil, decretando o Reino Unido.
As medidas tomadas por D. João desenvolveram ainda mais a consciência de que o Brasil tinha interesses próprios. Por outro lado, elas eram insuficientes para resolver os problemas que se acumulavam desde o final da época da mineração. O Brasil se debatia ainda numa profunda estagnação, que só poderia ser superada com a transferência das decisões sobre os nossos destinos para dentro do país, não apenas territorialmente – como já era o caso desde 1808 – mas para a mão de brasileiros, e de acordo com interesses brasileiros.
LEVANTES E ALIANÇAS
Depois da Inconfidência Mineira, fruto dessa aguda crise, o Brasil tinha sido sacudido, outra vez, em 1798, pela Conjuração Baiana, e em 1817 - já depois, portanto, da decretação do Reino Unido - pela Revolução Pernambucana, da qual participou Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, irmão de José Bonifácio.
Após a volta de D. João VI a Portugal, o que se segue é uma tentativa, última e desesperada, de fazer o Brasil retroceder ao antigo estatuto de colônia, ao monopólio comercial dos atravessadores da metrópole - que sustentava a vassalagem da corte à Inglaterra - e ao sufocamento do desenvolvimento interno.
Mas o Brasil havia crescido demais para caber nessa camisa-de-força. Desde o início do ano de 1822, a situação é de levante aberto contra a tentativa de recolonização. A aliança do Partido Brasileiro - que representava principalmente a classe que dominava a economia do país, os proprietários rurais exportadores - com o Partido dos Liberais Radicais, do qual eram dirigentes Gonçalves Ledo e os dois irmãos mais jovens de José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco, representando principalmente os segmentos urbanos, pequenos comerciantes, boticários, professores, jornalistas e o baixo clero, garantiu a Independência.
Essa aliança política dos setores nacionais isolou o Partido Português, formado pelos comerciantes da metrópole que tinham filiais no Brasil - e dominavam a maior parte do comércio interno brasileiro -, fervorosos adeptos da recolonização e da volta de seus privilégios.
Coube a José Bonifácio perceber que, nas condições da época, em que dentro do país prevaleciam relações escravistas e eram dominantes os proprietários rurais, a Independência do Brasil, com a manutenção de sua integridade territorial, só seria possível através de um regime monárquico. A república - preconizada a princípio por seus irmãos e a maioria dos Liberais Radicais - naquele momento significaria a predominância dos interesses locais e regionais sobre o interesse nacional, com o risco de divisão do país.
Em janeiro de 1822, diante da decisão das Cortes portuguesas de exigir a volta de D. Pedro a Portugal, os dois partidos nacionais promoveram o abaixo-assinado, redigido por José Bonifácio, que redundou, no dia 9 desse mesmo mês, no “fico” de D. Pedro. A resposta de D. Pedro já considera o Brasil como “nação”, oito meses antes do Sete de Setembro: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico”.
A reação do Partido Português ao Dia do Fico foi o motim da guarnição do Rio de Janeiro, chefiado pelo general lusitano Jorge de Avilez. Mas D. Pedro agiu rapidamente, obrigando Avilez a retirar suas tropas da capital.
“CUMPRA-SE”
Em maio, diante de novas medidas para submeter o Brasil, o ministério de D. Pedro, liderado por José Bonifácio, o aconselha a decretar - e ele o faz - que as ordens de Lisboa só tenham validade com o “cumpra-se” firmado pelo Regente.
No dia 3 de junho, D. Pedro, também a conselho de José Bonifácio, convoca eleições para a Assembléia Constituinte. Tratava-se do rompimento com Portugal, embora oficialmente o Brasil permanecesse como parte do “Reino Unido”.
Um mês depois, D. Pedro endossa uma aberta declaração de independência, o Manifesto de 1º de agosto, escrito por Gonçalves Ledo.
Em setembro, após ler as considerações de José Bonifácio sobre os acontecimentos políticos que se precipitavam, D. Pedro, no Ipiranga, proclama a Independência. A 1º de dezembro, era coroado Imperador do Brasil.
Mas não havia acabado a Guerra da Independência, iniciada ainda antes dela, em novembro de 1821, pelo ataque das tropas portuguesas às brasileiras, em Salvador. Em fevereiro de 1822, após a destituição do comandante da guarnição, Manuel Pedro, substituído pelo general português Madeira de Melo, a capital da Bahia foi imersa num banho de sangue. Após cinco dias de agudo combate, os batalhões brasileiros foram obrigados a sair de Salvador, recuando para o Recôncavo.
Depois de nove meses de guerra, após a decisiva batalha de Pirajá (8 de novembro de 1822), as tropas brasileiras cercaram Salvador. Mas somente no dia dois de julho do ano seguinte, depois do bloqueio marítimo da cidade, a soldadesca portuguesa se rendeu.
Também tinham sido ocupadas por tropas portuguesas as províncias do Maranhão e do Grão-Pará - que reunia em seu território a área dos atuais Estados da região Norte, com exceção do Acre. Porém, depois do desembarque de nossas tropas em Belém e São Luís, as tropas metropolitanas foram definitivamente derrotadas.
Carlos Lopes
Hora do Povo 2699





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